tic tac tic tac

quando cheguei naquele ocaso
por acaso atrás do tempo, do siso
um vento torto encapetou minhas velas
bem naquela hora que dizem ser mágica
afoguei-me nos teus olhos
vim para acalmar tempestades
alisar os mares em que cismas
soprar a neblina dos sofismas
não fiz nada.
Assim, sem querer, morri.
era quase noite
nuvens magenta se arrastavam
minha nau aportava em teus olhos insones
tu chamaste e eu corri
desastrada tropecei
e caímos enredados
abraçados nas promessas
tantas!
doidas!
imensas!
queria salvar-te e soçobrei
danem-se! Minhas culpas e intenções enfermas.
era tão tarde, ninguém viu
a mãe terra seguiu girando em seu fuso
gamos-rei vagueavam órfãos
vagávamos também atrás do tempo, tempo que vinha
tempo que foi sem ter sido
tic tac tic tac
beijávamos dias a fio
enfastiados dessa tarde inteira
desse acaso sem fim
fechávamos os olhos mudos
fugíamos da luz
driblávamos a escuridão
a lua escorregava sem pressa
e chegava quando dormias
perdido e desabado na noite que caía
sorrias dentro dos espelhos
avessa e cansada entrevia futuros
visagens inúteis
morri nos teus olhos numa tarde qualquer
beijei teu sorriso que o breu comia
ele partiu-se
cacos de riso tilintam pelos cantos
guardados na antessala vazia
a luz respinga em mim
pinta negrumes dissonantes
poemas rendados na pele nua
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